Em Tocantins, ação interétnica com indígenas de aldeias Karajá ressaltou a importância da medicina tradicional nas intervenções de saúde e soluções de problemas nas comunidades

 

A primeira quinzena de janeiro do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Araguaia foi marcada pelo protagonismo de indígenas Karajá. Pajés e lideranças idealizaram e protagonizaram uma ação de saúde mental com a pajé Mapulu, da etnia Kamarujá (Kamayurá), a fim de prevenir a ocorrência de tentativas de suicídio entre jovens Karajá. A ação foi concentrada nas aldeias Santa Isabel do Morro e Fontoura. Apoiaram a ação os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) Araguaia e Xingu e a área técnica de Saúde Mental da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).

A presença da pajé Mapulu foi solicitada pelas lideranças e pajés da região para desfazer feitiços que, acreditam, sejam a causa de surtos de suicídio entre a juventude Karajá. “Ela é filha de um grande pajé e tem muito conhecimento sobre a pajelança; é bastante respeitada. Eles acreditam que ela é capaz de desfazer os feitiços”, afirma Mariana Vaz Tassi, analista técnica de políticas sociais em Saúde Mental, da Sesai.

Lívia Campos, também analista de políticas sociais da Secretaria, explica que o intercâmbio de conhecimentos tradicionais de cura entre etnias é muito comum entre os indígenas do Xingu e do Araguaia e que esta não foi a primeira vez que a pajé teve o apoio da Sesai para uma ação fora de sua aldeia.

“A Secretaria a apoiou, pela primeira vez, em 2012, quando foram feitas uma série de ações para conter um surto de suicídios. No ano seguinte, foi registrada uma queda significativa dos casos, mas os indicadores de 2014 e 2015 voltaram a nos preocupar”, diz Lívia. Na época, segundo dados epidemiológicos registrados pelo DSEI Araguaia, tanto os óbitos quanto as tentativas de suicídio caíram drasticamente após a pajelança realizada por Mapulu.

 

INTERCÂMBIO DE SABERES

 

A partir de 2010, os casos de suicídio entre jovens Karajá cresceu expressivamente e chegou a níveis preocupantes. Segundo dados de sistemas de informações do Ministério da Saúde, a taxa de suicídios entre as comunidades Karajás que vivem no território coberto pelo DSEI Araguaia é a maior do País. A situação, encarada como um surto pelas equipes de saúde, tem impacto social profundo na vida das comunidades, que veem, diariamente, a história de seus antepassados ameaçada quando seus jovens tiram as próprias vidas.

A parceria com os indígenas é vista como um grande sucesso, que já deu resultados no passado e espera-se que surte efeito positivo e perene. Mariana assume, porém, que não é simples esse intercâmbio de saberes entre medicina tradicional indígena e medicina ocidental. Contudo, julga fundamental.

“Entendemos que é preciso partir do pressuposto de como eles, os indígenas, compreendem o problema; como é compreendido na sociedade deles. Não podemos copiar um modelo não indígena de intervenção sem considerar a perspectiva indígena do problema. Os modelos não indígenas, geralmente, não dão conta da complexidade da questão”, salienta.

Danielle Cavalcante, diretora do Departamento de Atenção à Saúde Indígena, da Sesai, conta que o envolvimento da comunidade comprovou a importância da ação. “Durante a pajelança, muitas pessoas se envolveram e demonstraram interesse e reconhecimento da prática. Essa ação ratifica a necessidade das práticas tradicionais indígenas e vai ao encontro da nossa Política de Atenção Integral à Saúde Mental das Populações Indígenas ao salientar a autonomia destes povos para propor soluções para seus próprios problemas”, garante.

Além da intervenção da pajé Mapulu, outras ações foram realizadas em 2015 como parte de um conjunto de estratégias de intervenção visando a prevenção dos óbitos por suicídio. Capacitações das equipes de saúde mental, tanto em nível distrital quando nacional; articulação com o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de São Felix do Araguaia, cidade-sede do DSEI, para pensar ações conjuntas de promoção de saúde e bem viver; e projetos vinculados à cultura e esporte junto aos jovens Karajá fazem parte da estratégia de enfrentamento.


Por Déborah Proença

 

                                                   

Fotos: Acervo / DSEI Araguaia                         

 

 

Complementa Poliana L. Cremonin que esta ação decorreu a partir do I Encontro de Pajés Karajáspromovido pelo DSEI Araguaia em parceria com a SESAI e SPDM em Agosto de 2015.

 

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